terça-feira, 20 de outubro de 2015

Cariocrônicas: “O lado A da rotina”


           Saiu de casa sem café da manhã, humor duvidoso. Tirar sangue e passar no mercado quase sempre cheio, o lado B da rotina. Ao menos a clínica estava vazia, ao menos a jovem ‘vampira’ era simpática. Tirou três ampolas. No final, pediu para limpar o pouco de sangue que ficou no braço: “Tenho TOC, preciso limpar”, riu-se. Cuidadosa, até o fim.
A (im)paciente desejou-lhe um bom dia, saiu para a rua já movimentada e teve a ideia salvadora: tomar café numa padaria. Sempre gostou disso, há tempos não o fazia. Dobrou a esquina e lá estava um misto de padaria, açougue e mercado. Um funcionário fazia um café, novinho. Cheirosíssimo. Com pó e passador de pano.

- Bom dia. Tem café, né? – perguntou ela, com novo ânimo.
- Novinho. Passando agora. Inteiro ou meio? – respondeu ele.
- Inteiro! O senhor pode fazer um sanduíche de queijo?
- Quente? Mussarela ou prato?
- Prato, frio mesmo.
- Manteiga?
- Um pouquinho, por favor.
- Seu café – disse, em tom quase musical, entregando-lhe uma xícara grande e o açúcar.
- Hum, isso é que é café! E não ‘chafé’. Uma delícia – comentou, sentindo o sangue voltar a transitar pelas veias.
- Você viu o Guanabara? A confusão que foi aquilo? – aproximou-se outro funcionário, puxando conversa com o cafeteiro. – Não dá pra ir lá, não. No de Vila Isabel tem 70 caixas, já pensou?
- Qualquer hora vai ter desgraça num deles, é muita desorganização – emendou ela, finalmente desperta, se deliciando com suas iguarias.
- Ah, aquilo tem jeito não, o povo compra pra vender na rua ou nos ‘pés-sujos’ e vai com tudo – resignou-se, como fato normal.
- Ahhh, mas ela foi culpada! – irrompeu um terceiro funcionário, vindo do fundo da padaria-mercado, entrando de sola na conversa. – Ela atropelou e depois fugiu.

         Como ninguém se manifestou, ela se interessou.

- Mas, o que aconteceu?
- Vendo na televisão que a madame atropelou dois trabalhadores e foi embora. Aí foi parada por uma patrulhinha logo adiante, e o povo queria linchar ela – explicou, com leve indício de indignação.
- Mas você acha que adianta linchar?
- Se não fosse a PM, o povo tinha linchado. Aí ela foi presa, pagou uns “15 contos” na delegacia e já foi liberada. Brincadeira – arrematou, com ironia.

         Ouve-se a voz de outra funcionária conversando, em altos brados, com a colega da caixa registradora.

- Eu falei pra ele que pode me chamar até de cachaceira, mas daquilo, não! Eu, hein... Me vaza – contou, provocando risadas.

         Ela se voltou para o interlocutor.

- Mas a tal motorista deu alguma justificativa por não ter ajudado os trabalhadores?
- Ah, duvido. Essas madames não precisam disso.
- Olha, terminei aqui, quando te devo?
- Peraí – respondeu, pegando um lápis e um papel e somando as despesas da cliente. – São 7,50.
- Desculpe, mas não tenho trocado – disse ela, estendendo uma nota de 20,oo.
-Tem problema, não – respondeu, solícito, já pegando o troco.
- Ih, você já viu que está com duas marcas de batom? Nos dois lados do rosto – informou ela, sem conter o riso.
- Eu? Que isso! – atrapalhou-se, ainda mais ao ouvir as risadas dos colegas.
- E são marcas de beijo.
- Ihhh? Como assim? Eu, hein. Essas mulheres... – saiu, acelerado, rumo aos fundos do mercado-açougue.

         Se foi coisa de madame, não tinha a menor importância. O café delicioso, caloroso, carioca, desceu com gosto de pertencimento. As ruas, íntimas, o humor, reconhecível, afinal. O lado A da rotina





terça-feira, 6 de outubro de 2015

Curso de Escrita: Com quantos estilos - e desatinos - se faz uma autoficção?


Não sei o que é mais dificil: pegar ou desapegar. Da escrita de um livro. Quem souber, me diga. Grata.
No início, são só a ideia e a página em branco. Vem a introdução. Gulp. O primeiro capítulo. Cáspite. A gente pega no tranco. Na retranca. Em certos momentos, paralisada por zagueirões + cabeças de área. À la Dunga.

Bom é nos dias em que pega bem. À la Zico. Na veia. Rasgar uma, duas, muitas delas, de preferência. Ou, por inexperiência no gênero em que se inicia. No caso, uma “autoficção”. Uma aventura a cada letra, frase, oração. Ordenação de sentido. Qualquer coisa que faça sentir. Qualquer coisa que faça ir. Qualquer coisa que faça ter ido.

Capitulei muitas vezes. Muito bom encerrar um capítulo. E reescrevê-lo no dia seguinte. Ah, briguei com uma personagem. Briga feia. Manchei as páginas de de vermelho, rosa, roxo. Bege.
Agora, depois de um arco-íris de tormentos, como me desgarrar do texto que pede, quase implora para se despedir?

Não sabia começar. Agora, estou aprendendo a sair.

E pretendendo contar tudo isso a quem se dispuser a participar, falar, ouvir. Seja bem-vindo. 





http://www.facha.edu.br/extensao/




terça-feira, 15 de setembro de 2015

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Cariocrônicas: Forró sem cartilagem


            Posto de Gasolina. Lagoa. Segunda, 11:55. A madame para o carro, o frentista vem caminhando com dificuldade, no estilo ‘ponto-e-vírgula”.

- Bom dia, gasolina comum?
- Bom dia. Sim, por favor, pode encher o tanque.
- Alguma coisa a mais?
- Calibrar os pneus. E colocar aquela ‘aguinha’ para limpar os vidros, por favor.
- Pois não.
- Desculpe, mas o que houve com a sua perna?
- Ah, isso aqui tá feio, madame. Tá cartilagem no osso. Só botando prótese.
- Verdade? E quando vai ser isso?
- Só Jesus... Tô na fila de dois hospitais. Num deles, sou o número 500 e poucos. Acho que vai sair mais rápido aqui no Hospital de Ipanema.
- O senhor tá aguentando trabalhar assim?
- A gente dá um jeito, né... Quanto vai na calibragem?
- Deixa eu ver aqui na porta... 33-30.
- Já tomei tudo quanto é remédio. Outro dia um cliente me disse pra comprar um remédio que vende nos Estados Unidos.
- Hã?
- Ele falou assim como se fosse logo ali, em Nova Iguaçu, hehe...
- É... Quando ele for, quem sabe, né?
- A senhora vai precisar de óleo?
- Não!!! Sempre me oferecem óleo nos postos. Será que tenho cara de madame sem noção?
- Não! A senhora é muito simpática.
- Obrigada.
- Gostei da escova.
- Hã?
- Gostei da escova!
- Escova? No cabelo?
- É, ficou bom.
- Mas o senhor sabe que eu não fiz escova?
- Verdade?
- Verdade. Sequei com a mão, mesmo.
- Mas, olha, ficou muito bom.
- E o cabelo está precisando de um corte.
- Mas tá bonito.
- Obrigada.
- Será que dá pro senhor jogar uma aguinha no vidro?
- Dá, sim, mas tem que...
- Ah, não, deixa. Com essa perna, vai ter que puxar mangueira...
- Bom, eu agradeço à senhora.
- Imagina.
- Só falta a água no tanque. A senhora sabe que, mesmo assim, eu danço um forrozinho?
- Verdade? E consegue?
- A gente dá um jeito. A senhora gosta de forró?
- Eu gosto, mas não costumo dançar.
- Tem que ir na Feira de São Cristóvão. No sábado. Melhor dia. Encontra o Nordeste lá. Come de tudo.
- Ih, mas eu tô de dieta...
- Desgasta tudo lá mesmo.
- No forró?
- É. Mas tem que ser no dia de sábado.
- Ok. Aqui está o cartão, senhor...?
- Nílson. Mas não precisa chamar de senhor. Só Nílson.
- Ué, mas o senhor tá me chamando de senhora o tempo todo...
- Mas eu sou empregado...
- Eu também sou. De vários patrões.
- É que tem gente que não gosta que a gente trate pelo nome, sabe?
- Sei. Mas o senhor costuma chamar os clientes de doutor-doutora?
- Hehehe...
- Doutor e doutora, só médico. E olhe lá.
- Hehe... Uma boa semana pra senhora.
- E para o senhor também.